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Conservas de peixe na Lusitânia

Conservas de peixe na Lusitânia

O quadro produtivo da Boca do Rio e das restantes cetariae do Algarve

Production of fish-sauces in Lusitania. The productive frame of the Boca do Rio and the other cetariae of the Algarve

untranslated article

Ismael E. MEDEIROS
Universidade do Algarve (Faro)
nerysplit@hotmail.com

publicado em ANALES DE ARQUEOLOGÍA C O R D O B E S A núm. 25-26 (2014-2015)

Resumo

O desenvolvimento dos estudos em torno dos preparados piscícolas em Portugal deu-se sobretudo na década de 90 do século XX, potenciado por um grande número de intervenções arqueológicas em áreas litorais, por sua vez determinadas pelo exponencial crescimento urbanístico. O resultado foi uma grande concentração de tanques (cetariae) e outras estruturas pesqueiras de época romana, quer nos estuários do Tejo e Sado quer na costa meridional do Algarve.
Mas, em toda a extensão da costa algarvia não se conta com uma única escavação planeada e integral num destes sítios arqueológicos e, as descobertas mais recentes, que datam de 2010, decorreram de trabalhos pontuais de arqueologia preventiva. Este estudo atualiza o conhecimento sobre as cetárias da região ao nível das tipologias, quantidade, implantação e incorporação intra-sítio, relação com o território e estado de conservação, estimando, para os casos dos tanques completos, as capacidades produtivas.

Resume

The development of the studies about the production and commerce of fish-sauces in Portugal took place, essentially, in the 1990s, a consequence of the large number of archaeological interventions in coastal areas resulted of the exponential urban growth. There is a big concentration of tanks (cetariae) and other roman fishery structures, both in the estuaries of the Tagus and Sado rivers as in the south coast of the Algarve. 
But, throughout the Algarve coast does not exists one of these archaeological sites fully excavated, and, the more recent discoveries (of 2010) were of sporadic preventive archeological works. This study updates the knowledge of the cetariae of the region, in particular about types, quantity, architecture, location, integration in a territory, state of conservation, estimating, for the cases of complete tanks, the productive capacities.

1. Introdução

A ampla frente atlântica, rica em peixe, e o clima quente, com estiagens longas e secas, adequado à extração salícola, fizeram da Lusitania uma das províncias romanas privilegiadas para a exploração dos recursos marinhos. Em praticamente toda a latitude do litoral português pode-se encontrar vestígios arqueológicos da ocupação romana. São testemunhos da importância e dimensão da grandiosa economia marítima de Roma. As potencialidades geográficas e ambientais das costas do sudoeste ibérico, particularmente a ocidente do Estreito de Gibraltar, estão bem documentadas e podem ser equiparadas às zonas costeiras do Mediterrâneo. Dos estuários dos rios Tejo e Sado à costa meridional algarvia, Andaluzia Ocidental e costas norte-africanas há um pontilhado de complexos industriais de tanques onde se produziram salgas e preparados de peixe (Fig. 1).

O reconhecimento da relevância alimentar que as conservas piscícolas adquiriram na Antiguidade deu lugar a discussões e problemáticas em trabalhos pioneiros como o de J. Edmondson (EDMONDSON, 1987) e o de M. Ponsich e M. Tarradell (PONSICH, 1988; PONSICH & TARRADEL, 1965). Os contributos destes autores prendem-se com a análise de uma vasta porção da faixa costeira portuguesa, dando a conhecer o grande número de unidades de produção de preparados de peixe, tendo por base levantamentos cartográficos antigos, muitos dos quais produzidos no século XIX. Inicialmente todos se debruçaram sobre Tróia (Setúbal), na foz do Sado, como ex-líbris produtor, talvez pela sua localização periférica e isolada (tendo em conta que ainda não eram conhecidas as fábricas da costa alentejana e Vale do Tejo). O desenvolvimento dos estudos em torno dos preparados de peixe em Portugal deu-se principalmente na década de 90 do século passado, potenciado por um maior número de intervenções arqueológicas realizadas em contextos litorais, por sua vez determinadas pelo exponencial crescimento urbanístico, tendo-se constatado uma grande concentração de tanques de salga (cetariae) e de outras estruturas relacionadas com a pesca e transformação de pescado, tanto nos estuários do Tejo e Sado como no Algarve. Simultaneamente, a investigação das ânforas de fabrico lusitano, diretamente ligadas à exportação das conservas, acabou por, implicitamente, reforçar a importância alcançada pelos estudos sobre a atividade pesqueiro-conserveira em território português, que aos investigadores pioneiros parecia ser de justa atribuição face às evidências arqueológicas da exportação das produções lusitanas (ALARCÃO & MAYET, 1990; FILIPE & RAPOSO, 1996).

FIG. 1. Mapa com a distribuição das fábricas no mundo romano (adaptado de WILSON, 2006, p. 532).

Do longo processo de acumulação de dados resulta hoje uma convicção: a de que a pesca foi, na província lusitana, atividade próspera e prevalecente no tempo! Mas essa certeza não elimina questões como as cronologias e ritmos de laboração, tanto da pesca como das atividades conserveira e salícola, principais espécies de peixes e quantidades capturadas, tipos de pesca praticados, geografia global da produção conserveira da costa lusitana e o enquadramento socio económico dos centros produtores. Carlos Fabião frisa a necessidade de dar resposta a estas questões pois considera que são fundamentais para compreender o que e quanto deve a economia pesqueiro-conserveira romana ao mundo indígena, das inovações incrementadas por Roma que permitiram disseminar as fábricas pelas províncias, ou das cronologias das fábricas implantadas de raiz em época romana e determinadas pela produção e comercialização em maiores escalas (FABIÃO, 2009, p. 556). Outra questão que não está compreendida é a do fim da produção das conservas: quando e como deixaram de ser hábito de consumo das gentes mediterrânicas em favor de uma alimentação diversificada e do incremento da pesca medieval, menos intensiva e parcamente inalterada até aos inícios do século XX (ibidem). Os principais meios de conhecimento da economia romana de preparados de peixe são dois: os estudos arqueológicos dos restos materiais e ictiológicos e os registos que a literatura greco-latina transporta (GARCÍA VARGAS & FERRER ALBELDA, 2006, p. 19).

Porém, dadas as omissões generalizadas das fontes escritas em relação a este tema, tanto as greco-latinas como as islâmicas, e o facto da pesca, extração de sal e produção de conservas serem assuntos complementares, ambos obtêm as ambicionadas respostas quase exclusivamente nos restos materiais que chegam até ao presente (ibidem). Porém, esta premissa não é linear! Na verdade, por se tratar de contextos industriais, dos quais geralmente subsiste um espólio rudimentar e escasso e estruturas de construção simples, que recorrem a materiais perecíveis e localizadas na costa, e que por isso são bastante afetadas pela erosão marinha, torna a obtenção dessas respostas uma tarefa mais difícil do que transparece ao início.

Nas duas últimas décadas o número de investigadores interessados pelo tema dos preparados de peixe na Lusitânia cresceu. Os estuários do Sado e Tejo cedo se constituíram zonas preferenciais para a canalização dos projetos de investigação, muito por força da importância das descobertas de Tróia e das várias fábricas de salga das áreas urbanas de Lisboa, Almada e Setúbal. Por outro lado, no que respeita ao Algarve, nos últimos trinta a vinte anos grande parte dos trabalhos que abordaram as cetariae da região limitaram-se a citar as já muitíssimo divulgadas Antiguidades Monumentaes do Algarve (VEIGA, 1910), Arqueologia Romana do Algarve (SANTOS, 1971) ou Two Industries in Roman Lusitania: Mining and Garum Production (EDMONDSON, 1987). Assumiram-se como repetições acrescentando pouco ao conjunto de dados então conhecidos, mesmo que não deliberadamente e admitindo que os responsáveis não deixaram de abordar os elementos secundários associados aos vestígios arqueológicos e a procurar gizar algumas ilações.

Note-se que o primeiro a salientar a importância dos preparados de peixe no Algarve foi o ilustre tavirense Sebastião Estácio da Veiga, aquele que ainda é o maior responsável pela coleta de dados sobre as cetárias da região, através da referida obra, alvo inevitável de múltiplas referências, inclusivamente neste artigo.

Tendo-se já mencionado que as problemáticas inerentes ao estudo das conservas piscícolas e das instalações conserveiras romanas obtêm respostas com as metodologias arqueológicas, ao excluir-se as cetariae não descobertas por Estácio, verificamos que o repertório de fábricas ou hipotéticas fábricas de salga romanas e o conhecimento sobre cada um dos sítios que escavou ou relatou a presença de núcleos de tanques, não obteve avanços consideráveis. Deve-se isso à ausência generalizada das ações de prospeção ou escavação arqueológica necessárias à sua compreensão ou tão somente à relocalização das implantações das estruturas ainda sobreviventes. As descobertas mais recentes de cetárias, como as da praia do Martinhal (Sagres) ou Monte Molião (Lagos), decorreram de acompanhamentos em trabalhos de arqueologia preventiva previstos pela construção civil e requalificação de espaços urbanos, de forma que os dados obtidos são não menos que escassos e fragmentários. Ou seja, em toda a extensão da costa algarvia não se conta com uma única escavação planeada e integral na área arqueológica de um destes sítios costeiros. Logo, a lista das cetariae e das villae maritimae com cetariae que este artigo apresenta figura como um puzzle em que faltam peças, não permitindo compreender o cenário arqueológico produtivo global. Mais que não seja, intervir arqueologicamente num destes sítios é útil na medida do registo de um património relevante, cujas perdas ocorrem sempre que a integridade das estruturas implantadas na linha de costa é posta à prova pela erosão marítima.

Nesse campo, uma das raras ações dignas de referência é o projeto coordenado por João Pedro Bernardes – A Exploração dos Recursos Marinhos Algarvios na Época Romana, de que resultaram os trabalhos de licenciatura e mestrado do signatário (MEDEIROS, 2009; 2010). Apesar de limitados na abordagem da vertente socio económica, pelas razões já aludidas, as duas teses trouxeram dados novos sobre a arquitetura e organização espacial a partir da análise do que era visível do complexo de cetárias. Este grande centro produtor implantado na praia é um caso paradigmático do que pode ser chamado de exemplos da economia pesqueiro-conserveira romana. Trata-se do conjunto de cetariae algarvio que mais intervenções arqueológicas recebeu desde a descoberta nos finais do século XIX, sendo hoje aquele onde é mais provável obter as almejadas respostas para a organização espacial deste tipo de ocupação, capacidade de produção e classificação tipológica.

Desde 2003 publicam-se dados sobre as estruturas da Boca do Rio (BERNARDES, 2007; BERNARDES et al., 2008), numa continuidade de elaboração de ideias e interpretação de dados avançadas pelos pioneiros (sobretudo Estácio), registando-se o aparecimento de estruturas e materiais no talude da praia, cuja exposição aos intensos processos de erosão marítima é motivo de grande preocupação.

Mas, no plano das investigações Boca do Rio não é caso isolado. Saliente-se outro grupo de cetárias alvo de intervenções arqueológicas onde foi possível recolher dados para a compreensão da economia pesqueiro-conserveira do Algarve romano. A primeira destas é a escavação de urgência dos tanques e balneário da Senhora da Luz, em Lagos, por Rui Parreira (PARREIRA, 1997). Também na Ria Formosa, a escavação da Quinta do Marim (Olhão), de Carlos Tavares da Silva (SILVA et al., 1992), merece destaque. Estes trabalhos mostram que a produção de conservas no Algarve deve ser colocada em pé de igualdade com regiões contíguas até aqui consideradas dominantes (Fig. 2). Esta falsa realidade tem vindo a ser esbatida com a descoberta de tanques no norte-europeu em locais onde não se havia diagnosticado predominância da indústria (FERNÁNDEZ OCHOA & MARTÍNEZ MARGANTO, 1994; VAN NEER & CKER, 1994; EHMID et al., 2004; ANDREWS, 2006). É presumível que o Algarve praticasse estreitas relações comerciais com o território envolvente, remetendo a produção para o porto de Cádis, e daí para outros pontos do império, e com as províncias do Norte de África. Os achados que documentam a importância das produções algarvias, em particular o aparecimento de ânforas de fabrico lusitano em várias latitudes do Mediterrâneo, levam em crer que Gades era uma placa giratória comercial que ligava o extremo ocidental mediterrânico ao centro do império e áreas marginais (LAGÓSTENA BARRIOS et al., 2007, p. 227). O controlo de toda a envolvência do Estreito de Gibraltar por parte de Cádis pode ser interpretado numa escala alargada, extensa, entre outros pontos, à costa algarvia. É essa a razão pela qual se encontram, em pleno século I, mercadores algarvios em Cádis a exportar lotes para a península itálica (ETIENNE & MAYET, 2002, pp. 105, 223, 229).

Fig. 2. Listagem dos sítios com cetárias conhecidos na Hispania Romana – costa bética, lusitânica oeste e tarrraconense (segundo BUGALHÃO, 2001; LAGÓSTENA BARRIOS, 2001a; WILSON, 2006 e outros).

Esta premissa  do domínio territorial comercial da cidade gaditana é contrária à de J. Edmondson que, em 1987, argumenta que as conservas do sul lusitano não atingiram patamares de excelência, limitando-se a dar resposta a uma procura de matriz local, complementar aos dividendos da exploração agropecuária, contrária à realidade do Vale do Sado. A subavaliação do potencial qualitativo dos produtos do Algarve preconizada por J. Edmondson e outros investigadores deve-se, em parte, à escassez de informação de que se dispunha sobre as cetárias da região algarvia. Certo é que a maioria dos tanques registados no atual território português situar-se em terrenos com fraca aptidão agrícola (FABIÃO, 1994).
Esta não é, contudo, uma afirmação pacífica. Veja-se o caso da Boca do Rio. A proximidade a terrenos férteis justifica a defesa de uma lógica complementar na exploração dos recursos naturais, daí que seja fundamental conhecer a organização dos espaços e a arquitetura do sítio na íntegra. Até ao momento as estruturas destinadas à alfaia agrícola estão ausentes do registo arqueológico, o que não implica que não possam estar presentes na vasta área arqueológica inviolada. No reverso da medalha, a identificação de sítios de cronologia romana implantados nas vertentes dos morros circundantes à Boca do Rio fazem supor que a ocupação humana do vale, em época romana, pode ser complexa, remetendo para um povoamento relacional entre um espaço produtivo costeiro, especializado na produção de preparados piscícolas, e um ou mais povoados do interior vocacionados para a prática agropecuária. Ora, por isso é que o assunto da complementaridade produtiva num mesmo sítio não está esclarecido, carecendo de uma abordagem mais fundamentada.
Para elucidar estas conjeturas certamente contribuirão as prospeções realizadas para a Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo, a decorrer desde Abril de2014 sob a direção de Ricardo Soares e nas quais o signatário participará.
O catálogo de sítios da costa meridional algarvia de que existem relatos e registos arqueológicos de cetárias apresentado na referida tese resulta do cruzamento das cartas arqueológicas da região com os relatórios das escassas intervenções realizadas nesses contextos, as obras de Estácio da Veiga, Maria Luísa dos Santos e J. Edmondson, e o catálogo de cetárias hispânicas de Lázaro Lagóstena (LAGÓSTENA BARRIOS, 2001). A listagem dá a conhecer locais da costa onde foram identificados tanques, características de implantação e relação com o espaço envolvente, número e tipologia das cetárias e respetivo estado de conservação ou, ainda, para os casos dos tanques completos ou parciais, a volumetria e a capacidade produtiva. Integram-nantanto os sítios onde a identificação de tanques como cetárias é segura como os que pela parca segurança dos dados apenas são considerados sítios produtores potenciais.

2. Cetariae da costa meridional do Algarve

A primeira das cetárias conhecidas mais a ocidente ficaria na praia do Beliche, em Sagres (A1). No levantamento arqueológico do concelho de Vila do Bispo (GOMES et al., 1987, p. 67) e com base no que Octávio da Veiga Ferreira descreveu (FERREIRA, 1966-67), Mário Varela Gomes refere restos de um tanque. A ter existido, esta cetária não chegou a ser registada por Estácio aquando da sua passagem pelo local, partindo-se do princípio que já não era visível à superfície. Também hoje não é.

A 1,50km a sudeste de Sagres, num dos ilhéus da Baleeira (A2), em frente à praia do Martinhal, existiram estruturas, escória de ferro e cerâmica romana (SANTOS, 1971, p. 69). O levantamento de Varela Gomes descreve restos in situ de opus signinum da base de uma (ALARCÃO, 1988) ou mais cetárias (GOMES et al., 1987, p. 67).

No centro oleiro da praia do Martinhal (A3), cuja bateria de fornos de ânforas e cerâmica de construção está patente no perfil da falésia, também se assinala produção de preparados de peixe. A descoberta permite reinterpretar o modelo de exploração do sítio (RAMOS et al., 2010, p. 352), ainda que não clarifique a relação cronológica entre a fábrica de salga e a olaria. O conjunto constitui-se por um tanque bem conservado, parte de outro e os muros delimitadores oeste e norte do edifício que os albergava. A datação aponta para finais do séc. IV / inícios do V (idem, ibidem, p. 358). A análise dos dados arqueológicos do sítio e a integração deste contexto específico no quadro da produção do território, onde concorre com grandes complexos como Boca do Rio, Senhora da Luz e Loulé Velho, corrobora a ideia de que ali a produção de conservas de peixe destinava-se a consumo doméstico ou local, contrapondo-se ao fabrico de ânforas para exportação.

FIG. 3. Listagem das cetárias da costa Algarvia, com indicação dos sítios seguros e dos sítios hipotéticos (H). Para a sua localização vide FIG. 4.

Fig. 5 – Mapa geral da área arqueológica da Boca do Rio com as zonas onde Francisco Alves escavou as cetárias em 1982 (segundo BERNARDES, 2007).

FIG. 4. Mapas com a localização dos sítios com cetárias do Algarve, por sectores: I. Ocidental; II. Central; III. Oriental (a partir do software Google Earth)

Em Areias, topónimo a sudeste de Budens (Sagres), Estácio registou vestígios de quatro tanques forrados a opus signinum (VEIGA, 1910 apud in SANTOS 1971, p. 80): dois contíguos, de dimensões reduzidas, e dois maiores, ligados por canalização que integrava um alicerce (A4). Tendo em conta a proximidade ao núcleo sepulcral e às cetárias da Boca do Rio, poucos quilómetros para sudeste, a orientação partilhada pelos tanques de ambos os sítios (noroeste-sudeste) e a tradição pesqueira da região, admite-se tratar-se de cetárias, embora o seu isolamento e distância para a costa o contradiga. É possível que estes tanques tivessem outra função que não a salmoura de peixe, tratando-se por exemplo de um balneário. Mas, a sua morfologia original é de difícil reprodução.

Também na praia da Salema (A5), 2km a sul de Budens, parece ter existido um complexo conserveiro romano contíguo a compartimentos pavimentados por mosaico e com espólio associado (VEIGA, 1910, p. 211).

Segundo Estácio, no flanco esquerdo da escarpa que desce até ao areal, havia “fundos de arrasados tanques de salga” que tinham como fábrica-mãe Boca do Rio, poucos quilómetros para este. E é só!

É justamente na Boca do Rio que se situa um dos maiores centros produtores de preparados de peixe da região algarvia (A6). Este complexo industrial desenvolve-se de forma similar às villae rurais, pautando-se por três realidades construtivas diferenciadas: uma, habitacional, constituída por uma domus com o seu balneário, mosaicos e estuques pintados, campus servilis e estatuária diversa, implantada na orla do mar; outra, fabril, nas imediações da primeira, à semelhança dos pátios agrícolas, onde se implantaram as cetárias; uma terceira, identificada como espaço de transição entre as duas anteriores, da qual pouco se sabe. O sítio foi profusamente escavado na área residencial mas a área das cetárias encontra-se praticamente imaculada. Só Francisco Alves lá escavou (ALVES, 1997), dando a conhecer um total de 12 tanques organizados em três núcleos (Fig. 5). De acordo com a prospeção geomagnética de 2008 a área abarcada por este complexo é considerável (HAENSSLER, 2008). Em articulação com a ocupação costeira encontra-se a sepultura de inumação assinalada por Santos Rocha (SANTOS, 1971) que integrava a necrópole de datação tardia (sécs. II-IV) dada a conhecer em 2003, que está em linha com o principal período de funcionamento das fábricas de salga da Lusitania e com a cronologia de ocupação da Boca do Rio (sécs. I-V).

fig. 6 Cetárias da Senhora da Luz, com indicação dos tanques 1 a 16 e dos complexos de salga A a D. As diferentes tramas assinalam as quatro fases de (re)construção 1, 2a, 2b e 3 (segunda PARREIRA, 1997).

Burgau (A7) é outra praia do concelho vila-bispense onde se assinala presença de cetárias. Estácio relaciona-as com um aglomerado piscatório anterior à romanização idem, p. 107). As moedas que recolheu entre o talude e o areal são baixo-imperiais e remetem a ocupação para os finais do séc. IV ou inícios do V (EDMONDSON, 1987, p. 255). É tudo quanto se sabe!

Em território lacobrigense, na praia da Luz / Senhora da Luz (B1), uma vez mais Estácio identifica um complexo de preparados de peixe. A realidade arqueológica deste sítio é semelhante à da Boca do Rio, dado integrar compartimentos com pavimentos de mosaico, balneário e um número considerável de tanques – 16, dos quais 12 intactos.
Dividem-se em três núcleos (Fig. 6). Os restos das ânforas Almagro 51a-b e 51c que preenchiam, junto com restos de espinhas e sob camadas de derrube de telhado, algumas das cetárias, remetem a derradeira fase de ocupação para datas tardias, entre os séculos III e IV (PARREIRA, 1997, p. 244).

O Monte Molião (B2), colina destacada a nascente da baía de Lagos, foi um local preferencial de estabelecimentos humanos desde o séc. IV a.C. A existência de vestígios arqueológicos no sopé da colina é uma descoberta relativamente recente e refere-se a um conjunto de estruturas, depósitos de sedimentos e materiais pré-romanos, romanorepublicanos e alto-imperiais, de que importa destacar duas cetárias escavadas na rocha. Estes dois tanques integram um complexo com cronologia de implantação (sécs. I-II) e abandono (séc. II) precoces (BARGÃO, 2008, p. 181). A estrutura que lhes é contígua, datada dos séculos II-III, trespassou um dos tanques (idem, p. 182).

Do Centro Histórico de Lagos, margem esquerda da Ribeira de Bensafrim, há a contabilizar três áreas com fábricas: ruas Silva Lopes (B3a), 25 de Abril (B3b) e Castelo dos Governadores (B3c), como testemunhos de uma grandiosa indústria de exploração de recursos marinhos sob a atual cidade de Lagos (RAMOS, 2008, p. 91). O conjunto da Rua Silva Lopes (Fig. 7), composto por 15 tanques estruturados em três núcleos, foi sujeito a remodelação e funcionou entre o terceiro quartel do séc. I e os meados do II (GONÇALVES, 2009, p. 25). O momento de abandono do sítio é gradual, entre inícios ou meados do séc. V e finais do século seguinte.

Os contextos arqueológicos da Rua 25 de Abril reportam-se a três fases de ocupação, entre o alto-império e momento tardio, e correspondem à parte industrial e hipotética parte residencial. As sondagens revelaram dois conjuntos de cetárias, um com três unidades e um com quatro grandes e uma mais pequena, que devem pertencer ao mesmo complexo. A cronologia de construção destes tanques foi obtida através do espólio recolhido nos depósitos da lixeira das imediações, pressupondo um início de laboração situado no final do séc. I ou séc. II (idem, p. 30).

O abandono é revelado pelo preenchimento de uma cetária, cuja cerâmica proveniente da primeira camada de entulho é enquadrável entre finais do séc. IV e inícios do V. Os tanques identificados nos nºs 57-71 da rua foram abandonados nos sécs. V-VI, tendo a desativação da fábrica sido progressiva, processo em que cessou primeiro a parte sob os nºs 53-55. É de Estácio a lusão à cetária destruída da Rua Castelo dos Governadores, junto ao Hospital Militar e Igreja de Santa Maria, na época Ermida de Nossa Senhora da Graça (VEIGA, 1910, p. 221). A prova de que se trata de mais uma fábrica romana de conservas de peixe foi dada pelos resultados da intervenção arqueológica realizada em 2005-06 no decurso do programa Polis (SERRA & DIOGO, 2008, pp. 220-221). A área escavada revelou 11 silos e três tanques afetados por valas e canalizações modernas.

A sua descoberta permitiu identificar uma área de implantação de cetárias com extensão considerável, entre a zona ribeirinha e o núcleo urbano primitivo.

fig. 7 – Cetárias da Rua Silva Lopes, Lagos (segundo RAMOS & ALMEIDA, 2005).

A intervenção arqueológica realizada no âmbito do projeto Urbanização da Meia Praia (B4) pôs a descoberto parte de umas termas, uma estrutura de cariz residencial e dois tanques escavados no substrato argiloso (SERRA & PORFÍRIO, 2006). Em relação aos tanques é de referir que, apenas com base na tipologia anfórica detetada (Dressel 7-11), relacionada com o transporte de preparados de peixe, e no revestimento do interior em opus caementicium, os autores da escavação dizem tratar-se de cetariae (ibidem). Baralha (C1), sítio com área arqueológica que ronda os 16000m2, é interpretado como villa. Junto a um talude do terreno, cobertos por grandes blocos de grés, existem muros (um com estuque pintado) e dois tanques revestidos por opus signinum (GOMES, 2005). A presença de estruturas impermeabilizadas não é suficiente para determinar a funcionalidade piscícola e, mesmo tratando-se de cetárias, não é certo que integrassem um grande complexo em detrimento de uma unidade de cariz doméstico (ibidem).

Na Abicada (C2), a implantação da villa romana, constituída por três zonas bem delimitadas (habitações, dependências e espaços produtivos) na pequena elevação que desce até ao antigo estuário, pressupõe que ali ter-se-á explorado recursos marinhos em complementaridade às práticas agrícolas, estando a primeira das atividades relacionada com o trânsito comercial da ria de Alvor. A hipótese cetárias deve-se à identificação de tanques forrados a opus signinum no talude, 20m a sudoeste, que Formosinho relaciona com uma de duas indústrias para além da piscícola: vinícola ou oleícola (SANTOS, 1971, p. 20).

Em Alvor, mais precisamente no Vau (C3), a oeste do Arade, margem direita da ria, e em frente à Vila Velha de Alvor, local para onde se defende a localização de Ipses, terão sido implantadas 15 cetárias. Foram registadas em planta por Estácio. Organizavam-se em dois planos, quer ao nível da praia quer superiormente, formando uma bateria de várias unidades retangulares paralelas orientadas a nordeste, que integrariam um grande complexo. Para Edmondson o sítio enquadrar-se-ia numa lógica de exploração rural em articulação com as villae mais próximas (EDMONDSON, 1990, p. 142). A norte e a sul do núcleo primitivo de Alvor registaram-se vestígios de pequenos tanques igualmente revestidos (GAMITO, 1987). A alusão a tanques junto a Alvor não é surpreendente pois vários autores localizam ali Portus Hannibalis.

No ano de 1878, entre o Forte de Santa Catarina e o Convento de São Francisco, na margem direita e junto à foz do Arade, no topónimo Portimões (C4), Estácio explora outro grupo de cetárias: uma bateria de 15 tanques forrados a opus, alinhados no sentido norte-sul e contíguos a outras estruturas (SANTOS, 1971, pp. 128-129). A datação desta ocupação enquadra-se nos séculos I a IV (LAGÓSTENA BARRIOS, 2001, p. 77).

Ferragudo, na margem esquerda do rio, é uma povoação com raízes numa aldeia piscatória que remonta a época pré romana ou romana. Em 1948, Mesquita de Machado assinala na praia da Angrinha (D1), junto à fortaleza medieval de Ferragudo, restos de uma fábrica de preparados (SANTOS, 1971, p. 135). Anos mais tarde, o médico Manuel Bentes deu conta do aparecimento de três tanques quadrangulares com 1m de lado e os interiores forrados por argamassa grosseira de pedras roladas (ibidem). Estácio encontrou edifícios pavimentados a mosaico e com estuque pintado (VEIGA, 1910) e recolheu dali moedas, entre elas um grande bronze de Nero, vidros, fragmentos de Terra sigillata hispânica e uma escultura em bronze representando uma serpente.

Em 1878 Estácio escavou no Ilhéu do Rosário (D2), num sítio arqueológico com estruturas romanas e medievais e materiais neolíticos e romanos, com predominância dos republicanos. Refere a presença de um tanque, provavelmente uma cetária, junto às estruturas da antiga capela e cruzeiro da Nossa Senhora do Rosário.

A praia de Armação de Pera (E1), 12km a este do Arade, perpetua a antiguidade da prática da pesca de atum. Estácio identificou tanques, alicerces e muros de tamanho considerável (SANTOS, 1971, p. 141). No início do séc. XX, Mesquita de Figueiredo escreveu sobre estes vestígios e, apesar de não se ter deslocado ao local, frisou que eram três tanques que já não estavam visíveis (FIGUEIREDO, 1906). Segundo Fabião, esta fábrica relaciona-se com as da envolvência de Portus Hannibalis (FABIÃO, 1994).

Na extremidade poente da praia dos Aveiros, sensivelmente 2km a sudeste de Albufeira e a 1km da Oura, encontra-se registada uma cetária (F1) escavada em esporão rochoso calcarenítico, atualmente exposta à erosão marítima (PAULO, 2011, pp. 513-542). Ao largo de outra praia do concelho de Albufeira, a dos Pescadores, aquando da realização das obras dos anos 80 do séc. XX no Largo do Cais Herculano, mencionou-se a descoberta de estruturas similares (F2).
Estas estruturas podiam ser vistas no areal junto à falésia, eram romanas e conservavam-se muito mal (PAULO, 2008, p. 510). A praia de Santa Eulália também é conhecida entre a população piscatória pelos vestígios de construções e materiais romanos, alguns dos quais integrados nos muros da ermida local. Sondagens de diagnóstico realizadas pelo arqueólogo municipal deram conta de um conjunto de cetárias com planta retangular (F3), construção em alvenaria de pedra e revestimento de opus caementicium (idem, p. 510). Com base no espólio pode datar-se os tanques, embora com pouca certeza, dos séculos III-IV (ibidem).

Algumas notícias bibliográficas e de tradição oral perpetuaram a memória de uma cidade romana sob a atual Quarteira, que se diz ter sido colónia fenícia e cartaginesa. É na praia, mais a oeste, que têm aparecido moedas em ouro e em prata, anzóis, ânforas e outros materiais da povoação romana “extinta e arrasada” referida por Estácio (VEIGA, 1910). Estácio deu a conhecer as cetárias que integravam o aglomerado (G1) ao citar Mesquita de Figueiredo (FIGUEIREDO, 1906). Fabião propõe como datação o século I a.C., que, a ser correta, é a mais antiga das cetariae da região (FABIÃO, 1994).

Um pouco mais a nascente, em Loulé Velho (G2), num dos sítios paradigmáticos do povoamento romano do litoral e exploração de recursos marinhos, há uma ocupação que se estende do século I a.C. aos séculos VI-VII. O sítio é interpretado como villa costeira luxuosa, muitas vezes equiparada ao Cerro da Vila. Enquanto polo aglutinador de gentes e bens, terá tirado partido da atividade pesqueira durante cerca de setecentos anos. Processos de mutação da linha de costa e ações antrópicas apagaram as evidências da península que ali existiu e do conjunto de tanques de grande dimensão. Tendo em conta a descoberta de pesos de lagar e a proximidade de solos férteis é lícito pensar-se, tal como para outros sítios com cetárias na região, numa complementaridade entre a indústria de transformação do peixe e a exploração agrícola do interior. Fabião considera a possível integração destes vestígios com os de Quarteira num grande centro piscatório anterior ao início da Era (ibidem). No verão de 2006, uma equipa da Universidade do Algarve procedeu à escavação de emergência de uma pequena cetária (Fig. 8) num esporão argiloarenoso que se prolongava mar adentro, num local onde são recorrentes as descobertas de estruturas arqueológicas. Dez anos antes, Varela Gomes tinha dado conta de um conjunto estrutural com uma basílica paleocristã (GOMES & SERRA, 1996). A cetária apresentava-se em cota inferior à das estruturas religiosas e nivelada com a sepultura entretanto descoberta nas proximidades.
O tanque pertencia ao conjunto maior registado naquele promontório pela arqueóloga Isabel Luzia (LUZIA, 2004). Aqui parece ter sido implantado um dos maiores centros produtores de preparados da região, com atividade entre o séc. I a.C. e o séc. IV. Luzia dá conta da destruição de várias cetárias de distintos tamanhos, registadas nas campanhas arqueológicas anteriores. Do conjunto total restam 18 com 1,90m de largura por 2,70m de comprimento e 1,80m de profundidade, e três menores (0,80m de lado), do mesmo núcleoda cetária escavada em 2006 (ibidem).

Conhecido desde 1963, o Cerro da Vila (G3) é um dos sítios arqueológicos mais importantes do litoral algarvio, encontrando-se amplamente escavado e estudado. Este aglomerado romano secundário vocacionado sobretudo para a exploração dos recursos marinhos e agrícolas, com a sua villa latifundiária, balneários, edifícios decorados com estuque pintado, mausoléu, necrópole, estruturas industriais, barragem e área portuária, foi ocupado até ao período islâmico (TEICHNER, 2004, p. 206). Relativamente à parte industrial, aquela que aqui interessa abordar, e em concreto às fábricas E, H, I e J, Félix Teichner considera que se tratam de estruturas para transformação de moluscos bivalves e gastrópodes. Três eram destinadas às conservas piscícolas e uma à extração de púrpura (Murex brandaris) para tinturaria de tecidos. Nos finais dos anos 80 do século XX, Dias Diogo dá conta de um edifício orientado a sudeste-noroeste aparentemente constituído por duas estruturas retangulares com pavimento de opus signinum, com os remates das paredes em meia-cana (DIOGO, 2001). Tratar-se-ia de uma sala de trabalho com 4,60m de largura, um retângulo de 4,10m de largura e 2,60m de comprimento que incorporava dois tanques com o mesmo revestimento. O maior, localizado mais a norte, apresenta também planta retangular com dimensões de 2,08m de largura e 0,70m de comprimento, podendo tratar-se de um tanque de lavagem tendo em conta os ralos de escoamento, tanto para o exterior da estrutura como para a própria sala de trabalho. O outro tanque, de planta semicircular e com cerca de 0,70m de largura máxima, servia o processamento de víveres, uma vez que possui um sistema de escoamento de resíduos idêntico ao das cetárias. Segundo o autor, “a existência destes dois tipos de tanques na mesma estrutura, com a funcionalidade complementar de lavagem e processamento, associada ao achado de uma importante bolsa de conchas de berbigão, permite-nos formular a hipótese de estarmos em presença de uma unidade de processamento de bivalves, aqui tratados em moldes industriais” (ibidem). Através do projeto Ocupação Rural no Sul da Província Romana da Lusitânia, coordenado por Teichner, esboçou-se a planta arquitetónica do sítio e identificou-se o grande complexo industrial J, a este do bairro norte e fábrica H, e a norte do bairro este e área sepulcral. As sondagens realizadas incidiram num edifício com mais de 130m de comprido, orientado a este-oeste, com corredor central, oficinas e armazéns para obtenção de tintas (TEICHNER, 2004).

Estes resultados, inéditos em território algarvio, apuram o suporte económico de um sítio que se pensava vocacionado para explorar os recursos marinhos com vista à produção de conservas, mas que afinal é mais complexo (ibidem).

FIG. 8 Cetária da praia de Loulé Velho no final da escavação de emergência (segundo BERNARDES, 2008a).

Em 1985, a escavação urgente do Tejo do Praio, entre a Quinta do Lago e Quinta do Ludo, puseram à vista um conjunto de cetárias de dimensões reduzidas (G4) do séc. I (ARRUDA, 1986), utilizado até ao séc. V Situa-se entre dois estuários, constituindo-se por dois núcleos: uma fileira de cinco tanques escavados na rocha, organizados ao longo de uma área com c. de 70m2, sendo a sua construção da primeira metade do séc. I, e um grupo situado nas imediações que terá sido construído após o abandono progressivo do grupo primitivo, a partir de meados do séc. III. Deste grupo restam três tanques bastante destruídos e aparentemente díspares. Tendo em conta a cerâmica recuperada, o conjunto da Quinta do Lago terá laborado até meados do século V.

Quando se construía uma cave na baixa de Faro, entre a Avenida da República e a Travessa da Madalena (H1), terá aparecido um derrube de telhado romano sobre uma coluna de mármore e três cetárias destruídas pelos trabalhos de construção civil. Mais à frente, na esquina entre o Largo da Madalena e a Rua Conselheiro Bívar, encontraram-se seis ânforas dispostas in situ, e na vertical, com restos de sal e peixe e, associada, uma moeda de Nero (ROSA, 1984, p. 152).

Na Doca de Olhão, a construção do porto de abrigo junto à antiga Fábrica Fialho destruiu sete ou oito cetárias (I1). Edmondson alude à descoberta de vestígios de muros revestidos por opus signinum, possivelmente de um tanque com 1,80m de comprimento e 1,60m de largura localizado perto dos fornos de ânforas Almagro 51A-B de Alfanxia (EDMONDSON, 1987, p. 260).

Quinta de Marim (I2), cuja classificação não é unânime (portus fiscivilla, vicus, villa agromarítima, igreja paleocristã ou cidade), é um dos sítios mais referenciados na literatura clássica sobre a região. Lázaro Lagóstena admite tratar-se de uma Stacio sacra e interpreta-o como um povoado secundário alto-imperial ao considerar a cronologia e importância dos vestígios (LAGÓSTENA BARRIOS, 2001). Em 1990, Cristina Garcia identifica uma cetária (Fig. 9) e estruturas habitacionais, e, em 1995, no âmbito do projeto para a Carta Arqueológica de Portugal, foi identificada e escavada outra cetária. Trata-se de um povoamento polinuclear com três sectores estabelecidos ao longo da margem do pequeno paleoestuário da frente da barra marítima oriental de Ossonoba. Estes sectores, porto marítimo, villa e fábrica de salga, segundo os dados apresentados por Luís Fraga da Silva, individualizam-se do ponto de vista topográfico, funcional e cronológico. Aqui, a indústria conserveira ter-se-á desenvolvido em articulação com as atividades portuária e agrícola.

Do complexo de conservas e púrpura implantado a cerca de um quilómetro a sul da villa, conhecem-se as estruturas industriais: seis cetárias e um forno de cal; as residenciais; e os armazéns de planta retangular de apoio à produção conserveira. O edifício das cetárias, onde foi identificado um momento de reconstrução com um alicerce adossado ao muro norte, tinha pelo menos seis unidades produtivas. Estes seis tanques orientados a este-oeste agrupavam-se em duas fileiras separadas pelo corredor. A implantação da fábrica é do séc. II. Na centúria seguinte alguns tanques são abandonados e utilizados como lixeiras, situando o último momento de laboração entre meados do séc. III e o primeiro quartel do séc. IV, embora o sestércio de Maximiano recolhido perto dos armazéns sugira que a fábrica não sobreviveu ao séc. III (idem, p. 342) e que Edmondson, na obra Two Industries in Roman Lusitania, remeta o abandono para o séc. V (EDMONDSON, 1987, p. 260). O sítio configurava uma espécie de arraial conserveiro com acesso privilegiado aos chamados pesqueiros de Olhão.

No território de Balsa há duas fábricas: uma na Torre d’Aires (J1) e outra junto à foz da Ribeira das Antas (J2), na margem esquerda e acompanhando o paredão do cais, com parte das cetárias submersas. Os trabalhos de 1977 detetaram uma conduta em opus incertum revestida por opus caementitium que ligava o balneário, a norte, ao primeiro conjunto de tanques. Este conjunto é  muito heterogéneo no formato e dimensões: uma cetária é retangular, tem ângulos arredondados em curvatura larga; outra, mais recuada a norte, igualmente retangular, tem os ângulos praticamente retos (ibidem); outra cetária é de grandes dimensões: 4m de comprimento, 2,80m de largura e 1,20m de profundidade. Próximo do cais de Balsa, na praia de Pedras d’El Rei (J3), há referência a uma villa onde se terá identificado um forno. Alguns autores referem-se a uma cetária (VIEGAS, 2009). As prospeções de 1994 não detetaram quaisquer vestígios das estruturas.

FIG. 9. Planta das cetárias e armazéns da Quinta de Marim, em Olhão (segundo SILVA et al., 1992).

Tanto Estácio como Leite de Vasconcelos reportaram achados em Cacela, junto à Fortaleza e Igreja: três tanques forrados a opus signinum (K1) e mal preservados. Desta possível fábrica conhece-se um muro em alvenaria conservando a base e o pavimento de opus signinum sob depósito de telhas romanas e modernas. A erosão costeira e a destruição humana fizeram desaparecer os tanques. Mesquita de Figueiredo, no início  do século XX, afirmava serem quatro e mais alguns destruídos na praia (FIGUEIREDO, 1906, pp. 118-119). Não é seguro que se trate de uma unidade distinta da da Quinta do Muro (K2) ou de uma única fábrica, que, a confirmar-se, teria dimensões consideráveis.

Fabião considera que a atividade produtiva concentra-se nos sécs. I-II, contrariamente à grande maioria dos sítios análogos da Lusitania, cujo momento áureo da produção é o século III. Mas, o aparecimento de uma moeda do séc. IV pode indiciar um período de funcionamento mais amplo (GARCÍA, 2003).
Em 1965, uma reportagem do Diário de Notícias dava a conhecer a descoberta de um complexo de tanques na zona intertidal da Praia Verde, após forte ação erosiva das marés-vivas (L1). Deste conjunto faziam parte restos ictiológicos, humanos, muros com revestimento de opus signinum e muros de tijolo com estuque pintado numa das faces, cuja decoração é geométrica, a azul, preto, vermelho e amarelo. Edmondson localiza um forno e cetárias (L2) em São Bartolomeu de Castro Marim (EDMONDSON, 1987, p.  262). A presença de cerâmica tardia e ânforas datam a primeira fase da ocupação dos sécs. III-IV e, num segundo momento, da Alta Idade Média. Realce-se a referência a um forno de ânforas e a cerâmicas e estruturas revestidas a opus signinum identificadas nas prospeções de 1994.

 

3. Capacidade produtiva e outras leituras possíveis (Fig. 10)

A quantificação da capacidade produtiva das cetárias registadas pela arqueologia aquando do seu uso original permite compreender a evolução da indústria das conservas salgadas.

A implantação das fábricas de salgas com tanques construídos e organizados em espaços próprios está diretamente relacionada com o desenvolvimento dos mercados que, por sua vez, davam resposta a uma ele vada procura pela vasta gama de conservas (WILSON, 2006). Com base nos volumes e cronologias de funcionamento das cetariae algarvias é possível inferir que:

– a quantificação produtiva permitida pelos tanques conservados acentua a ideia já avançada, que as fábricas com maior capacidade de produção, isto é, superior a 30m3, só têm sido registadas em cinco latitudes: Britania, Baetica, Lusitania, nas costas norte-africanas e Mar Negro. Há uma razão óbvia: estas são as principais zonas de migração de cardumes de sardinha, atum e outros perciformes usados nas conservas;

– apesar da grande capacidade produtivamalgarvia e de algumas das suas fábricas, concretamente Boca do Rio, Senhora da Luz e Lagos, o conjunto de cetárias de Tróia excede, paralelamente ao de Plomar’ch 2 (Douarnenez), qualquer unidade conserveira em toda a geografia do império;

– muitos dos complexos parecem apresentar produção especializada, atestada que está a presença de tanques pequenos, médios e grandes em simultâneo. Os maiores, as salgadeiras, estavam presentes em todas as unidades industriais, podendo-se falar numa produção especializada quando as mais reduzidas abundam, o que acontece na fábrica da Senhora da Luz, onde os três núcleos escavados têm 11 tanques num total de 16, com comprimentos e larguras inferiores a 1,50m ou que ultrapassam ligeiramente esse valor, mas nunca os 2m;

– as profundidades dos tanques do Algarve variam entre 1,50m e 2m e os maiores são os mais fundos;

– as dificuldades neste tipo de exercício continuam a ser evidentes. O problema que Wilson identifica no seu estudo é o mesmo  dos sítios algarvios: sobre muitos deles a única informação que existe é a do aparecimento das cetárias com base em relatos pouco expeditos de finais do séc. XIX a inícios do séc. XX, e, nos casos em que há registos arqueológicos, não é certo conhecer-se a quantidade e dimensão dos tanques.

Culpar exclusivamente os arqueólogos por registos deficientes é descabido, dado que é a destruição destes complexos, quer no pós-abandono quer com a erosão costeira, que está na origem dessa lacuna. Há, no entanto, um ponto que tem de ser referido e que é da responsabilidade dos investigadores e arqueológos:

a ausência generalizada de dados que demonstram se um tanque se preserva completo ou parcial na sua profundidade. Ao não conhecer-se a profundidade do tanque ou se os muros conservam a altura original, torna-se difícil avançar cálculos ou estipular a volumetria das produções. A capacidade das cetárias é o elemento que permite atribuir maior ou menor importância produtiva à fábrica, mas um estudo em torno das reconstruções e remodelações dos núcleos e dos próprios tanques é sempre necessário,  pois só dessa forma se conseguirá compreender o crescimento e decréscimo produtivo da indústria. Só que, o número de sítios com dados referentes à capacidade produtiva da Lusitania ainda é muito reduzido;

fig. 10. Tabela comparativa da capacidade produtiva entre fábricas / complexos de salga, numa escala de oito categorias expressada em m3 e em valores mínimos e máximos (adaptado de WILSON, 2006).

–a maioria das fábricas do Algarve estabeleceu-se nos séculos I-II e o abandono ou encerramento da laboração é progressivo entre os séculos IV e V, ou mesmo no séc. VI. As ocupações das fábricas de Loulé Velho e Quinta do Lago datam do século I. Ao considerar fiável esta cronologia, atribuiu-se a estes casos o estatuto de pioneirismo na região, já que só Quarteira apresenta um início de atividade anterior ao século primeiro, apesar de a informação assentar mais em especulações que em dados concretos. No caso da Senhora da Luz, ou de Torre d’Aires, são dignos de registo dois momentos distintos no séc. III: a primeira fábrica parece ter sido restruturada, com consequente aumento da produção. No caso da fábrica de Balsa, a ausência generalizada de materiais dos sécs. II e III nas áreas dos tanques pressupõe uma fase de interregno com retoma presumível na centúria seguinte. Não deixa de ser relevante que o complexo da Senhora da Luz, cuja quantidade de tanques cresceu algures no séc. III, registe como cronologia de abandono o século IV. Pode acontecer que o sítio, ao localizar-se num terreno muito alterado pela agricultura e construção civil, tenha sido afetado e não apresente espólio característico do séc. V e séculos posteriores;

–durante o séc. II os complexos da Boca do Rio, Senhora da Luz, Monte Molião, Rua Silva Lopes (Lagos), Loulé Velho e Quinta de Marim, ou seja os que aparentam ser os principais da região, role no qual pode incluir-se o Vau, estariam em funcionamento. Este dado vai ao encontro da informação resultante das escavações dos complexos dos estuários do Sado e Tejo e da restante faixa atlântica;

–as interpretações arqueológicas em torno da produção do Cerro da Vila carecem de uma avaliação mais cautelosa, por ser, sem sombra de dúvida, um caso particular. A incorporação dos dados obtidos nos estudos sobre este sítio, ou antes, das ilações de F. Teichner, não são tidas em conta neste trabalho por falta de elementos de comparação;

–a tabela disponibilizada em anexo, que compara alguns dos sítios com cetárias integrados na análise de Wilson (ibidem) com os casos do Algarve de onde foi possível obter volumetrias fiáveis, demonstra a importância desta região e do complexo da Boca do Rio no quadro global da indústria pesqueiro-conserveira romana.

Da leitura constata-se que, como espectado, Boca do Rio é um sítio que aparentemente ostenta uma grande produção.

Tendo em conta que muitos mais tanques se encontram sob as aluviões do vale, não é exagerado considerá-lo um dos maiores complexos industriais piscícolas da região algarvia e um dos mais importantes em toda a Lusitania. Convém lembrar que as conservas de peixe hispânicas eram apreciadas pela sua excecionalidade, e que por isso as cetariae do Algarve poderão ter-se especializado nos preparados mais requintados. Assim, a forma de mensurar a importância produtiva de uma fábrica ou de uma região tem de ser repensada, passando a basear-se não somente na volumetria dos tanques mas igualmente nas tipologias e no seu enquadramento na respetiva ocupação. Estando as cetárias mais pequenas ligadas a esse tipo de produtos pode ser dada maior enfâse às fábricas da Quinta de Marim e do Vau;

–a capacidade produtiva do Algarve, obtida a partir dos tanques preservados em todas as suas dimensões, é de 601,20m3. Se excluir-se Boca do Rio fica-se com cerca de 560,48m3, entre os 10 centros com dados: Martinhal, Senhora da Luz, Monte Molião, Rua Silva Lopes, Vau, Aveiros, Loulé Velho, Doca de Olhão, Quinta de Marim e Balsa;

–os sítios potenciais, aqueles em que as estruturas identificadas não podem ser classificadas seguramente como cetariae, são 12: Beliche, Baleeira, Areias, Meia Praia, Baralha, Rosário, Pescadores, Quarteira, Avenida da República, Pedras d’El Rei, Praia Verde e São Bartolomeu. Esta listagem corresponde a menos de um terço dos sítios com cetárias conhecidos (37), quer potenciais como confirmados, o que quer dizer que tendo em conta apenas os 25 sítios classificados com segurança, o número de fábricas continua a ser significativo para a extensão de pouco mais de 150km da costa sul algarvia, numa média de uma fábrica por cada seis quilómetros;

–a forte erosão que afeta a orla costeira, que tem conduzido ao desaparecimento deste tipo de sítios, condiciona a quantificação da capacidade produtiva. Ao considerar-se que estes processos de erosão atuam em níveis idênticos noutras latitudes onde há cetárias documentadas, não pode afirmar-se que o potencial produtivo da região algarvia é maior ou menor que o de outras regiões, apenas que é considerável para um território tão pequeno e periférico em relação ao coração do vasto império romano;

Ainda no que concerne à Boca do Rio, um dos poucos sítios de natureza industrial conserveira na região onde ainda é possível obter algumas respostas sobre a organização espacial das cetariae, da análise da documentação da escavação de 1982 resultou:

–a identificação de lacunas nos registos de campo, próprias de uma informação que não foi trabalhada e retificada, que constitui uma condicionante às interpretações que se possam querer inferir sobre o sítio. Falta o material gráfico do núcleo de cetariae nº8, ficando-se sem saber o número exato de tanques, profundidades, preenchimentos, construção, revestimentos e toda uma série de dados importantes;

–a constatação que, todavia, as orientações dos três núcleos de cetárias com dados completos dizem que pertencem a fases de construção e núcleos distintos, que podem muito bem não ter laborado em simultâneo.

Só que esta é só uma amostra do que parece ser uma enorme área com tanques, uma extensão com c. de 160m no sentido noroeste-sudeste com vários conjuntos de cetárias. Os dados da prospeção geomagnética de 2008 foram reveladores: apesar das dificuldades encontradas ao nível das contaminações com ruídos resultantes da presença das redes metálicas que vedavam a área arqueológica, são visíveis em muitos dos sectores da área prospetada muitas estruturas, especialmente na parte imediatamente atrás da frente de mar, onde se desenvolve uma grande estrutura compartimentada. Não se pode afirmar com certeza que as estruturas detetadas atrás da parte residencial integrem a parte industrial do sítio. A única forma de confirmar o tipo e funcionalidades é realizando sondagens na área de transição, entre o talude e a zona com cetárias, por forma a perceber se a extensão da parte residencial termina na frente de mar ou se se estende por mais de uma dezena ou vintena de metros;

–a incapacidade de inferir, só com base na geomagnética, se existem mais núcleos de cetárias. Aquilo que se cogita é que os três que foram escavados não deverão figurar sozinhos numa área tão extensa e com estruturas soterradas. Se toda a área for destinada à produção de preparados piscícolas, confirma-se a ideia assente que este é um grande complexo até ao momento sem equivalente na região;

–que, levando em consideração a soma dos volumes de produção dos três núcleos de cetárias, ou seja 15,54m3 (15540lt), como uma ínfima parte da capacidade produtiva do sítio, que extravasará os 30m3 apontados por Wilson (2006) como valor mínimo que distingue entre uma produção industrial e uma modesta (de cariz eminentemente local), pelo menos os sete tanques conservados incompletos, maiores que o mais pequeno dos completos (zona 8), teriam uma capacidade mínima de 19,18m3 (19180lt). Somando os valores aos quatro tanques que Edmondson refere, que não fazem parte destes núcleos e que têm mais de 6m3 em conjunto (considerando as dimensões mínimas 1m de lado por 1,50m de profundidade), obtém-se um volume total de 40,72m3 (40720lt). Como ainda não é possível datar os períodos de funcionamento dos núcleos, este número tem de ser entendido dentro das limitações da quantificação das capacidades produtivas de cetárias e da atribuição de maior ou menor importância ao complexo da Boca do Rio;

A ausência generalizada de dados crono-estratigráficos na Boca do Rio é, em parte, resultado da inexistência de registos que contextualizam o espólio das escavações arqueológicas mais antigas. No que aos materiais da escavação de F. Alves diz respeito, como praticamente só as ânforas foram estudadas, a obtenção das cronologias para as cetárias e depósitos antrópicos não é de todo possível. O estudo dos materiais de 1982 e da sua proveniência intra-sítio arqueológico torná-lo-á possível, ainda que existam limitações, não só porque a documentação da escavação não está completa mas também porque as sondagens que Alves abriu junto à frente de mar coincidiram, na maioria, com as dos trabalhos anteriores. O que quer dizer que serão os dados da parte industrial que trarão novidades. Aliás, como só Alves escavou naquela área e como não há um relatório a demonstrar a relação dos materiais com os complexos estratigráficos, a datação do período de funcionamento das cetárias ainda é impossível de obter. Acredita-se, porém, que o estudo dos materiais datantes, particularmente das cerâmicas finas, permita reconhecer a natureza dos estratos e, assim, avançar com datas para o início da laboração, momentos de reestruturação e abandono dos tanques.

A cronologia mais antiga da ocupação do complexo piscícola é dada por materiais do século I, mas nenhum está diretamente relacionado com as cetárias. Já as ânforas, praticamente todas tardias (séc. III em diante), apontam no sentido deste complexo ser, como a grande maioria dos casos da Lusitânia, coevo ou posterior à crise do séc. III, que afetou fortemente os territórios hispânicos a oriente e a norte, legando na economia pesqueiro-conserveira lusitana um papel mais relevante. Isto não quer dizer que a Boca do Rio não tenha recebido logo no séc. I ou no séc. II as estruturas que lhe conferem a natureza de centro conserveiro e que não houvessem já alguns núcleos com cetárias em funcionamento. É com base no espólio recuperado nas intervenções realizadas na Boca do Rio e nos fragmentos cerâmicos espalhados à superfície, que se pode afirmar que:

–em termos genéricos, a primeira ocupação do sítio dá-se por volta do século I, e que o abandono situa-se no séc. V ou talvez no VI, correspondendo as estruturas habitacionais escavadas, e eventualmente alguns dos núcleos com cetárias, a construções tardias dos sécs. III ou IV que aproveitaram muitos materiais da fase mais antiga (sécs. I-II);

–os materiais que datam a cronologia de ocupação mais antiga na Boca do Rio, ou seja, do séc. I, são exemplares de Terra sigillata clara A, hispânica, da forma Dragendorff 15 / 17, sudgálica, das formas Dragendorff 18, 27 e 29, fragmentos de um copo de vidro, da forma Isings 21, um recipiente em cerâmica de engobe vermelho (inícios séc. I?), e a estatueta de uma deusa alada, que pode remeter tanto para o séc. I como para o II. Estes materiais são prova da existência de uma ocupação do tipo villa marítima, pelo menos desde meados do séc. I, e reportam-se à área residencial do sítio. Note-se que o mosaico da sala J pode ter sido construído também nestas datas, tendo em conta as datações mais antigas com este tipo decorativo noutros sítios arqueológicos;

–o momento áureo da ocupação do complexo baliza-se entre os sécs. III e V. Além da maioria do espólio recolhido no sítio relacionar-se com estas cronologias, são as ânforas piscícolas que são dominantes entre a coleção estudada, dos tipos Africana 2, Almagro 50, 51A-B e 51C, Beltrán 72 e Keay XVI, colocando o enfoque neste período. Refira-se também que o único elemento escultório-arquitetónico conhecido, que se diz pertencer ao sítio, é um capitel coríntio do século  III (FERNANDES & GONÇALVES, 2010, pp. 155-189); que a sepultura de inumação do morro poente é enquadrável nos sécs. II a IV (NETO & DUARTE, 2003); e que o tesouro de mil moedas enterrado no talude da praia data de 402 (SIENES HERNANDO, 2000, p. 48). Há, ainda, um número muito razoável de fragmentos de cerâmica fina a traçar o carácter tardio da ocupação, nomeadamente as formas Hayes 8b (2ª metade do séc. II),Hayes 91b (2ª metade do séc. IV) e Dragendorff 37 (2ª metade do séc. II – séc. III)1;

1 | Como nos contextos arqueológicos dos armazéns e níveis de lixeira do complexo da Ilha do Pessegueiro, as cerâmicas finas correspondem a fragmentos de Terra sigillata sudgálica, hispânica e norte-africana, sobretudo, e mais aformas lisas que decoradas (SILVA & SOARES, 1993).

–o abandono do sítio situa-se no séc. V, podendo relacionar-se com a instabilidade gerada pelas invasões bárbaras e o consequente abandono da ocupação da extremidade do vale 2, embora nos territórios mais periféricos do sul da Península Ibérica os efeitos daquela instabilidade tenham sido mais ténues 3; com os efeitos de um cataclismo idêntico ao maremoto de 1755; ou, numa outra perspetiva, com a colmatação do estuário (CURTIS, 1991b, p. 300). A presença de moedas do séc. V e dos fragmentos de Terra sigillata clara D (séc. IV-V) pode ser tida como prova da laboração do complexo, ou pelo menos de algumas das cetárias, até essa altura. O sítio só volta a ser ocupado no séc. XVIII, quando se instalam os armazéns e estruturas de apoio à pesca do atum;

2 | O enterramento do tesouro pode refletir a vigência de conflitos militares nas imediações do sítio.

3 | A região pode ter sido afetada pelas hordas de Vândalos que, no séc. V, instalam-se no Norte de África.

Com a perda progressiva de importância da cidade de Cádis e do seu hinterland, potenciada com as várias reformas administrativas (LAGÓSTENA BARRIOS, 2001a), durante a Antiguidade Tardia outras regiões vão desenvolver-se. O declínio do Império Romano do Ocidente, sobretudo a partir do século II, para o qual contribuíram de forma significativa as invasões bárbaras, atirou a economia pesqueiro-conserveira das mãos dos mercadores e grandes cidades para o domínio de agentes locais (FERREIRA, 1966- 67, p. 134).

Boca do Rio, ao constituir não um simples povoado de pescadores, mas antes um aglomerado do tipo villa com padrões de bem-estar comuns à época romana (como se pode provar pela qualidade das manifestações escultóricas arquitetónicas, com luxuosos revestimentos interiores, pavimentos de mosaico polícromos e estuques pintados, e pelo espólio que tem vindo a ser recolhido ao longo dos anos e desde o final do século XIX), tirou partido da proximidade a mercados urbanos como Lagos ou Portimão e ao centro oleiro do Martinhal, das boas condições portuárias (estuário abrigado) e da forte ligação comercial com o Norte de África, patenteada pelas ânforas e recipientes de cerâmica de cozinha daquela proveniência presentes na estratigrafia arqueológica, para, enquanto sítio industrial baixo-imperial (séculos III-V), adquirir grande dinamismo. Para isso também contribuiu o desenvolvimento das cidades e o enfraquecimento do poder central.

Com a afirmação destes regionalismos, Boca do Rio assume papel preponderante no panorama local do Algarve, aproveitando a localização estratégica e muito boa disponibilidade  de recursos piscícolas para, talvez, procurar as economias externas. A integração deste sítio pode ainda ser determinada e condicionada por uma provável dependência de Lagos. As várias estruturas relacionadas com o processamento de recursos marinhos nos territórios administrativos dos principais centros urbanos, não só Laccobriga mas também Cilpes, Ossonoba e Balsa, articulam-se com os aglomerados secundários, menores e de estatuto inferior, que complementam a rede urbana, portuária e industrial do litoral.

O caráter da produção conserveira é urbano, de ligação aos portos, como acontece nas duas baías de Cádis (Cádis e Algecíras). Mas, no Algarve ocidental, onde a um fenómeno de ausência de aglomerados urbanos vigora um cenário de aglomerados secundários (villae e vicus), num fenómeno periurbano  ou rural onde se evidencia um terceiro tipo de povoamento estruturante do território e da exploração económica: os praedia maritimae com as suas estruturas conserveiras (GARCÍA VARGAS, 2006, p. 49).

No entanto, esta relação de dependência não inferioriza a importância do sítio, já que a economia lacobrigense suportava-se nas fábricas estabelecidas nas envolvências, inclusive na da Boca do Rio, dada a especialização económica como indústria produtora de um género alimentar tão apreciado na época romana. As produções das fábricas mais pequenas imediatamente a poente e nascente da Boca do Rio poderiam conectar-se com este sítio. A produção máxima algarvia situa-se em época tardo-imperial, justificando-se assim a ausência de alusões ao sítio na literatura, por exemplo, do itinerário Antonino. A ausência deve-se também a serem somente  assinaladas as vias principais que ligavam as maiores cidades, ou ao facto do acesso à Boca do Rio e a este tipo de sítio costeiro se perfazer essencialmente por mar.

Ainda no plano das dependências e relações comerciais, a importação das ânforas da vizinha província Bética e do Norte de África encontra-se atestada. Mas, quando é comparada, em termos estatísticos, com a frequência das ânforas de fabrico lusitano ou com as produções locais provavelmente fornecidas  pela olaria do Martinhal, parece ser mínima. Só que, o conjunto de ânforas estudado representa uma porção muito pequena do número total de fragmentos recuperados e dos que presumivelmente estão ainda in situ.

A relação com o Norte de África ter-se-á dado mais ao nível da importação de cerâmica doméstica e cerâmica fina (Terra sigillata clara).

Só uma intervenção integral, que envolva várias campanhas de escavações na área do talude continuamente fustigada pelo mar, permitirá salvar (pelo registo) informação arqueológica pertinente, concorrendo para a compreensão da capacidade produtiva deste sítio pesqueiro-conserveiro romano e para a valorização de um contexto arqueológico que é importante preservar por ser aquele que, no Algarve, pode desempenhar um papel científico e pedagógico como nenhum outro permite.

A apresentação e publicação dos dados da escavação de 20104, que interpretam a organização espacial, as cronologias e estratigrafia do sítio, previstas para Setembro de 2015 e os contributos que o signatário, juntamente com Ricardo Soares e João Pedro Bernardes, vão produzir na Carta Arqueológica de Vila do Bispo, que incidirão no estudo da realidade arqueológica do vale e das suas imediações, decerto permitirão inferir novas conjeturas.

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